Viagem de família: em busca de suas origens

Autor(a): Nélio Silveira Dias Júnior

Data: 05/04/2026

Resolvemos organizar uma viagem com a família da minha esposa para o interior do Estado, com a intenção de conhecer o lugar onde seu pai nasceu.

A ideia foi impulsionada pelo desejo da segunda neta de Chico Olavo de descobrir suas origens, aquela cidade onde tudo começou, pois, mesmo sem nunca ter estado lá, sente algo diferente em relação ao lugar; algo que não sabe explicar.

Espiritualidade, talvez.

A cidade é Umarizal, no oeste potiguar, na chamada “tromba do elefante” (Mapa do RN), região de clima semiárido, temperaturas elevadas e cerca de 10 mil habitantes.

Viajar em família é muito legal.

Grupo fechado: 11 pessoas. Roteiro pronto, discutido e aprovado, com discordância aqui e acolá. Afinal, há dificuldade de conciliar os desejos de todos e, com isso, surge uma ou outra insatisfação. Nada intransponível.

Marcamos o local de saída e o horário: 4h da manhã.

Como era de se esperar, alguns chegaram pontualmente; outros, nem tanto. Ainda assim, partimos: uns na frente, outros mais atrás. Os retardatários tiveram que acelerar…

No primeiro ponto de encontro: Posto Florestal em Assu (Antônio Galynha), finalmente nos reunimos. Depois do café da manhã, farto e animado, seguimos viagem. Passamos por várias cidades: Paraú, Triunfo Potiguar, Campo Grande, Janduís, Patu, Olho d’Água dos Borges.

No caminho, fomos a uma famosa queijeira em Janduís, conhecida pela produção do queijo de manteiga, uma iguaria típica do sertão potiguar. Compramos várias unidades frescas, recém-saídas do tacho, ainda quentes. A recomendação era clara: consumir depois de esfriar.

Um afoito não resistiu e comeu até enjoar. Não deu outra: vidro aberto do carro e várias paradas na estrada. Na última, parte da roupa já havia ficado pelo caminho.

Enfim, chegamos a Umarizal.

Sem o endereço exato da casa, tínhamos apenas a referência de que ficava ao lado da Igreja Matriz: a Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, padroeiro da cidade. Seguimos para lá.

A essa altura, qualquer imprevisto era culpa do guia!

Sentamo-nos na calçada da igreja — por sinal, muito bonita, construída bem no início do século passado — e que logo encantou a todos. Sob o olhar do padroeiro e entre uma reza e outra, apareceu Chicó, nativo que conhecia bem a cidade e a família Dias, à qual pertence o pai da minha esposa.

Chicó, depois de uma prosa rápida, falando da cidade e dos tempos antigos, identificou a linhagem de Chico Olavo: ele era filho de Maria Dias (Lica), casada com Francisco Olavo da Costa. Sua mãe era irmã de Anatildes Dias de Souza, casada com Paulo Abílio de Souza Martins, e, também, era irmã de Amabília Dias da Cunha Martins, casada com José Abílio de Souza Martins. Todos moradores da mesma rua. E, empolgado, prosseguiu: as três irmãs eram filhas de Almachio Dias da Cunha, descendente de Victor Dias da Cunha e, este, por sua vez, de Joaquim Dias da Cunha, o patriarca da família.

Com a árvore genealógica reconstruída de parte daquela família, Chicó nos levou até a casa onde nasceu Chico Olavo e viveram os seus pais, antes de virem morar em Natal.

Hoje, o imóvel abriga o fórum da cidade. Mas, a casa vizinha, totalmente preservada, permite imaginar como ela era antes. Ao lado, ainda permanecem as casas de Paulo Abílio e José Abílio, com a mesma arquitetura colonial da época.

A emoção tomou conta da família.

A segunda neta de Chico Olavo, entre os arrepios, as lágrimas; a mãe dos filhos de Chico Olavo relembrava detalhes e chorava; o filho mais velho, com voz embargada, recordava a farmácia do seu tio Paulo, das travessuras de pegar citrovit (de laranja) e beber, e das histórias antigas do avô.

Entre elas, contou a do medo de “alma penada” que Batu (irmão de Chico Olavo) sentia, sempre provocado pelo irmão: apagava a luz e corria; atrás da porta, sussurrava: “uuu…!” ou gritava “Buu!”. E também a do famoso Ford vermelho do avô, apelidado de “xoxota”, que fazia sucesso nas estradas. Repetiu, ainda, a frase preferida do avô, quando alguém o irritava: “vá chupar c* de passarinho”…

Ninguém resistiu, gargalhada.

Na calçada, outras histórias foram surgindo. A descontração predominava. A tarde caiu lentamente. Era hora de se despedir. Ficaram ali: lembranças e saudades, de pessoas, de coisas, de um tempo que não volta mais…

Seguimos para a Serra de Martins, onde pernoitamos. Um dia depois, retornamos a Natal com a sensação de termos reencontrado um pedaço de nós mesmos.

Viajar em família é uma resenha. O rebuliço é grande, mas, no final, a paz sempre reina.

FONTE:

– Breviário Genealógico do Oeste Potiguar – Misherlany Gouthier, Fernando Diniz Rocha, Airene José Amaral de Paiva, Unilton de Souza Nascimento

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