Lajedo de Soledade, um sítio arqueológico potiguar

Autor(a): Nélio Silveira Dias Júnior

Data: 27/11/2025

Em minhas andanças pelo Rio Grande do Norte, estive, em novembro passado, na Chapada do Apodi: sertão bravo, onde a vegetação, seca na maior parte do ano, ainda assim exibe a beleza singular da Caatinga. É um cenário onde o sertanejo demonstra sua garra, distinguindo sua força em meio a tantos desafios.

Mas, além do sertão, me deparei com outro verdadeiro tesouro, talvez pouco conhecido até mesmo pelos norte-rio-grandenses: o Lajedo de Soledade, um sítio arqueológico de inestimável riqueza.

De projeção nacional, o Lajedo de Soledade ocupa uma área de cerca de 1 km², “formado por rocha calcária de origem marinha de aproximadamente 90 milhões de anos, época em que o mar raso cobria a região”.

Ali, não apenas em estudos ou registros, mas diante dos olhos, encontram-se impressionantes pinturas rupestres: autênticas representações artísticas da Pré-História, gravadas nos tetos de cavernas.

Visitei de perto o Lajedo. Situado numa chapada que, à primeira vista, passa despercebido. No entanto, ao se aproximar e descer abaixo do nível do terreno, revela-se uma riqueza.

São cavernas e ravinas formadas ao longo dos anos, ricas em formações geológicas que encantam qualquer visitante. Ao me aproximar ainda mais daquelas aberturas, deparei-me com as pinturas rupestres, que revelam traços da cultura de povos que por ali passaram há muitos e muitos anos.
        Os registros rupestres apresentam-se em dois tipos: as pinturas e as gravuras. Nas pinturas, predominam a cor vermelha, aplicada, talvez, com as pontas dos dedos ou com galhos secos, feitos de pincel. Destaca-se o grafismo puro, com raras representações de animais, sendo a arara a pintura mais famosa do Lajedo de Soledade.

Ora se percebe o modo de vida daquele povo primitivo; ora se vislumbra sua cultura, levando-me à impressão de que o local talvez servisse apenas como passagem: uma espécie de “invernada”, por assim dizer.

O sítio arqueológico, antes abandonado, hoje é preservado. Muito se deve a Maria Auxiliadora da Silva Maia, cidadã de Apodi, que, “ainda criança, na década de 60, conheceu a arte rupestre e por ela se encantou”. A partir daí, dedicou-se a preservação do local.

A luta de Dodora, como era conhecida, pela preservação foi imensurável. Por ser o Lajedo de Soledade a maior exposição de rocha calcária da Bacia Potiguar, o local era muito explorado para a produção de cal. Se essa exploração tivesse continuado, talvez hoje nada restasse. Dodora tornou-se “o maior símbolo de resistência contra a destruição”.

Sua batalha começou solitária: conscientizando a população, escrevendo cartas às autoridades, insistindo na preservação. Com o tempo, já na década de 90, outras pessoas se uniram a ela, formando uma associação que, mais tarde, deu origem à Fundação Amigos do Lajedo de Soledade, entidade encarregada da preservação do sítio arqueológico.

Após duas horas imerso naquela paisagem, ao deixar o local, deparei-me com diversas excursões escolares, vindas de diferentes cidades do Estado e regiões vizinhas. Jovens estudantes eram levados a conhecer de perto aquela arte que não pode – nem deve – ser desprezada.

De volta ao centro de Soledade, visitei o museu, última parada do percurso, inaugurado em 1993. Projetado pelo arquiteto Adler Fontenelle, o edifício segue o estilo das antigas caieiras da região. O espaço é amplo, com painéis explicativos, peças em exposição e imagens do Lajedo. É dali, inclusive, que partem os guias que conduzem as visitas e enriquecem a experiência com informações valiosas.

Ali completei a compreensão do lugar ao observar objetos cerâmicos: machado polido, mão de pilão, e material lítico da fase da pedra polida, bem como fragmentos dos animais pré-históricos – mastodontes, toxodontes, preguiças-gigantes, tatus-gigantes, tigres dentes-de-sabre, dentre outros. 

O Rio Grande do Norte é grandioso, basta conhecê-lo para valorizá-lo.

Pessoas como Dodora deveriam ser mais reconhecidas e celebradas em todo o Estado, tanto pelos serviços prestados quanto pelo exemplo de determinação e consciência.

FONTES:

lajedosoledade.org.br

Fundação dos Amigos do Lajedo de Soledade (FALS)

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