Circo Tirú e o Nordeste: terra de gigantes

Data: 09/05/2026
Indiscutivelmente singular, o nordestino carrega uma identidade marcada pela força, pela criatividade e por uma admirável capacidade de resistir e recomeçar. Muitas vezes, ao deixar sua terra rumo a outras regiões, torna-se alvo de discriminação – injusta, diga-se -, embora a sua própria trajetória seja a mais eloquente prova de coragem e de dignidade.
Talvez, paradoxalmente, parte disso tenha uma origem.
Ao rir de si mesmo, ao brincar com suas próprias características e mazelas, transformando dores e dificuldades em humor, o nordestino, por vezes, vê essa leveza ser distorcida em estigma. Acaba, assim, alvo de rótulos que não lhe pertencem e de críticas que desconhecem a profundidade de sua história.
Não por acaso, o Nordeste brasileiro constitui um dos maiores celeiros culturais e literários do país, destacando-se pela força de sua identidade, pela inventividade e pela inteligência de seu povo, sem dever nada a qualquer outra região do Brasil.
Na literatura, nomes como Graciliano Ramos (AL), Raquel de Queiroz (CE), José Lins do Rego (PB), Jorge Amado (BA) e José de Alencar (CE) marcaram época. Na poesia, destacam-se João Cabral de Melo Neto (PE) e Castro Alves (BA). No teatro, é impossível não lembrar de Ariano Suassuna (PB).
Na cultura popular, especialmente no humor, o Nordeste também se impõe com força: Chico Anysio, Renato Aragão e Tom Cavalcanti são apenas alguns exemplos. Na música, então, a contribuição é imensurável: Luiz Gonzaga, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia traduzem, em som, a alma nordestina. Na educação, o legado de Paulo Freire é universal.
Fiquemos, por ora, nesses segmentos, sem adentrar na política ou nas ciências jurídicas, áreas em que igualmente encontraríamos nomes de grande relevância.
Recentemente, assisti ao espetáculo “Nordestinamente: em busca do primeiro palhaço,” do Circo do Tirú, do humorista Tirullipa, que mostra, com sensibilidade e humor, a origem do primeiro palhaço. Trata-se de uma apresentação que merece ser conferida, não apenas por sua beleza estética, mas também por valorizar o povo nordestino, sobretudo seus artistas, tantas vezes esquecidos.
O enredo é instigante. A narrativa gira em torno de uma jovem que sonha em se tornar palhaça e luta por seu espaço no picadeiro, enfrentando preconceitos e desafios, especialmente por ser mulher em um universo historicamente dominado por homens. A personagem Iracema conduz a história com força e sensibilidade, crescendo ao longo do espetáculo.
A montagem encanta desde o início, com música e dança, cenários interativos e números circenses que se entrelaçam com a narrativa. O musical, repleto de ritmos nordestinos, é um dos pontos altos, enquanto as apresentações circenses (acrobacia, malabarismo, equilibrismo, contorcionismo e ilusionismo) garantem o divertimento da criançada.
O espetáculo também presta homenagem a grandes nomes da região, valorizando a identidade nordestina, iniciativa que merece aplausos, muitos aplausos.
Todavia, assistindo à apresentação em Natal, onde o circo cumpre temporada, senti a ausência de referências mais consistentes ao Rio Grande do Norte. À exceção de uma breve menção a Titina Medeiros, não houve destaque à riqueza cultural do Estado, como se lhe faltasse representatividade dentro do próprio Nordeste.
Esse ponto merece registro.
É difícil compreender, por exemplo, a ausência de menção a potiguar Nísia Floresta (1810-1885), sobretudo em um espetáculo que aborda o protagonismo feminino. Educadora e pioneira do feminismo no Brasil, fundou o Colégio Augusto no Rio de Janeiro, voltado à formação de meninas, e publicou obras de grande relevância, como “Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens”. Figura de projeção nacional e internacional, destacou-se pelo protagonismo nas letras, no jornalismo e nos movimentos sociais, com uma produção que ultrapassa quinze livros escritos em português e francês.
Da mesma forma, causa estranheza a omissão de Luís da Câmara Cascudo, um historiador, sociólogo, antropólogo, etnógrafo, jornalista, folclorista e um dos maiores estudiosos da cultura popular brasileira. Nascido em Natal, dedicou sua vida a registrar tradições, lendas e costumes do país, sendo autor de obras fundamentais, como o Dicionário do Folclore Brasileiro, e deixando um legado inestimável, com mais de 150 obras publicadas.
Outros nomes norte-rio-grandenses de expressão nacional também poderiam ter sido lembrados, como os dos escritores José Mauro de Vasconcelos, autor de “Meu Pé de Laranja Lima”, e de Homero Homem, autor de “Cabra das Rocas”, além do maestro e compositor erudito Felinto Lúcio e o patriota Padre Miguelinho.
O Rio Grande do Norte integra o Nordeste, contribui para sua grandeza e, por dever de justiça, não poderia ter sido esquecido em uma homenagem aos expoentes da região.
Ao final do espetáculo – belíssimo, registre-se – procurei alguém da produção para externar essa percepção, mas não encontrei. Saí com um certo constrangimento, movido pela sensação de invisibilidade.
O Rio Grande do Norte não pode ser esquecido, muito menos em sua própria casa.

