Casamento: constituição da família, base da sociedade

Autor(a): Nélio Silveira Dias Júnior

Data: 22/02/2025

Era um dia de primavera, tranquilo e sem sobressaltos para advocacia, quando uma jovem médica entrou ao escritório em busca de consulta na área de Direito de Família. Demonstrava muita determinação. Sabia exatamente o que queria e, sobretudo, o que não queria. Sua impaciência para ouvir parecia evidente.

Por um instante, hesitei. Uma pessoa tão jovem, sem casamento, sem filhos… o que poderia desejar dos meus préstimos forenses nesse ramo do direito? Ainda assim a recebi.

Ao se apresentar, fui aos poucos reconhecendo-a. Anos atrás, eu havia conduzido o divórcio de seus avós maternos. Depois de algum tempo, o de seus pais. Mais tarde, o de seus tios. Quase toda a família havia passado por minhas mãos na Justiça.

Lembrei-me dela ainda criança, frequentando o escritório com sua mãe, sempre com os olhos atentos e mergulhada nos livros. Cheguei a presenteá-la com algumas obras de Monteiro Lobato, recordando, inclusive, sua indignação com o conto Negrinha, pelo tratamento dispensado pelo autor à personagem, apesar da crítica contundente que o escritor fez ao pensamento da sociedade escravocrata daquela época.

Impressionado com a sua presença, agora adulta, questionei:

— Em que posso ajudá-la?

Ela sorriu discretamente antes de responder:

— Não pretendo casar. Muito menos ter filhos. Não desejo constituir família. Sou independente, tenho minha profissão e é nela que pretendo focar e me dedicar. Mas, fui pedida em casamento por um médico e estou inclinada a recusar.

Pausou por um instante e completou:

— Meu histórico familiar sobre casamento fala por si, e você o conhece bem. Então, gostaria de ouvir sua opinião.

O casamento é mais do que um contrato jurídico com efeitos patrimoniais. É um compromisso que transcende papéis assinados e cláusulas legais. Na sua essência, é a união de duas vidas que optam por compartilhar sonhos, desafios e conquistas. Não se trata apenas de perpetuar a espécie, mas de dar sentido à existência através do amor, da cumplicidade e da construção conjunta.

O casamento é uma das instituições sociais mais antigas da humanidade, desempenhando um papel central na organização das sociedades ao longo da história. Em muitas sociedades, é visto como um pilar essencial para a construção de uma base familiar sólida, funcionando como mecanismo de transmissão de valores, cultura e tradições.

Entendo seu receio. O casamento de seus pais teve um fim, mas isso não significa que tenha falhado. O resultado desse vínculo está aqui, diante de mim: você. Relacionamentos podem ser transitórios, mas seus frutos são eternos.

Não se trata apenas de escolher um parceiro. Trata-se de edificar uma família, um pilar fundamental da sociedade. O casamento exige construção constante; não é algo que se finaliza no “sim”. É um edifício que precisa de manutenção diária, pois, sem isso, qualquer estrutura rui.

Manutenção diária é estar presente nos momentos difíceis, ouvir, apoiar e dividir responsabilidades. Implica dedicar tempo à relação conjugal, nutrir o diálogo e criar espaços de convivência saudável. Se a união do casal estiver forte e houver um comprometimento com a família, é possível superar os desafios e construir um lar próspero para todos.

— E se um dia tudo desmoronar?

Então, recomece. Levante novos pilares, reconstrua-se e reescreva sua história, pois a família pode renascer em novos moldes e ainda assim ser plena.

A jovem médica me ouviu em silêncio. Com a expressão séria, agradeceu e partiu…

Voltar