A Praça Assis Chateaubriand, o escritório e o tempo

Autor(a): Nélio Silveira Dias Júnior

Data: 31/05/2026

Há trinta anos, eu estava em busca de um imóvel para instalar um escritório de advocacia. Tinha uma prioridade muito clara: que ficasse em frente a uma praça. Desejava um lugar tranquilo e silencioso, com verde – muito ou pouco, mas que houvesse -, capaz de transmitir uma sensação de paz e reflexão.

Afinal, embora a advocacia se exerça, em grande parte, nos fóruns e tribunais – o que justifica a procura por imóveis próximos a esses locais – há outra parte igualmente essencial que se desenvolve nos escritórios no silêncio e na solidão das salas.

Nesse contexto, a tranquilidade é importante.

Caminhando lentamente por Natal, observando cada rua, cada possibilidade, o acaso me levou a subir a rua Ângelo Varela, até o seu topo. Uma via larga e conhecida, perpendicular à Av. Hermes da Fonseca, no bairro do Tirol. A rua recebeu esse nome em homenagem a Ângelo Varela Santiago (1849–1924), importante fazendeiro de Ceará-Mirim e tio do destacado médico Manoel Varela Santiago Sobrinho, cujo nome foi dado ao Hospital Infantil de Natal.

Foi ali que me deparei com a Praça Assis Chateaubriand. Apesar da importância do nome – um dos maiores das comunicações no Brasil entre as décadas de 1940 e 1960, proprietário dos Diários Associados, com circulação inclusive em Natal -, a praça não era muito grande. Ainda assim, possuía árvores e uma boa vizinhança.

O silêncio era meu maior aliado.

A praça em si tinha poucas árvores – acácia-amarela, nim-indiano, flamboyant, ipê-roxo, castanhola -, quase todas plantadas pelos próprios moradores, o que lhe conferia um caráter ainda mais singular. Havia árvores mais novas e outras já antigas, mas todas carregadas de significado, como as castanholas plantadas há muitos anos pelo agrônomo Samuel Francisco de Oliveira. Em seu entorno, porém, estendia-se o Parque das Dunas, com sua representação viva da Mata Atlântica, ampliando a sensação constante de verde.

Foi então que instalei ali o escritório de advocacia, de frente para a praça, onde permaneço até hoje, com algumas mudanças estruturais no prédio, mas sempre no mesmo local. Talvez seja, atualmente, um dos mais antigos da vizinhança.

No início, em 1997, não me recordo da existência de prédios nas proximidades. Eram apenas casas. Crianças e idosos eram os frequentadores mais assíduos. Pela manhã, ao chegar ao escritório, ou mesmo à tarde, ao sair, sempre havia pessoas na praça. Cumprimentava-as e, não raras vezes, trocávamos algumas palavras.

Trabalhar próximo a uma praça é, sem dúvida, um privilégio e, também, uma alegria.

Lembro-me do senhor Francisco Bastos Brenkenfeld, militar da Marinha, na Reserva, que residia nas imediações. Homem dedicado à família, fazia da educação dos filhos sua maior prioridade. Um verdadeiro exemplo de cidadão. Seu Bastos, como é conhecido, era uma espécie de guardião da praça. Quando não estava a contemplá-la do terraço de sua casa, caminhava por ali com seu cachorro. Hoje, é tudo diferente.

Bons tempos, boas memórias.

Durante todo esse período, exerci a advocacia a partir desse lugar. O tempo passou. Os antigos moradores se foram, algumas casas deram lugar a edifícios de apartamentos. Novos moradores chegaram. O comércio da rua Ângelo Varela se expandiu, sobretudo em seu trecho inicial: bares, lojas de roupas, escritórios de advocacia, clínicas médicas.

Hoje percebo o quanto a concepção urbana mudou ao longo desses trinta anos. Ainda assim, a praça permanece ali, viva e silenciosa, testemunhando todas essas transformações.

Infelizmente, continua esquecida, como já estava quando ali cheguei. Sem conservação adequada, com poucos equipamentos e estes, em grande parte, abandonados. Três décadas se passaram, tudo mudou, mas esse espaço urbano parece não figurar entre as prioridades da cidade.

Precisamos olhar melhor para as nossas praças. Cuidar das praças é, também, cuidar da vida em comum e em comunidade.

Fonte:

Luís da Câmara Cascudo – Ruas da Cidade do Natal.

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