Tempero da Zefinha: história e sonho

Autor(a): Nélio Silveira Dias Júnior

Data: 21/03/2026

Há um lugar especial onde o mar de águas calmas e esverdeadas é guardado por falésias altas e de cores vivas, em que o vermelho da terra se sobressai, revelando um cenário deslumbrante. Um lugar onde a contemplação convida à reflexão: o simples olhar já nos conecta a pensamentos — distantes ou próximos — mais profundos e pessoais.

É a Praia de Barra de Tabatinga, situada no Município de Nísia Floresta/RN, no Rio Grande do Norte, a poucos quilômetros de Natal.

Tabatinga é um termo de origem indígena, derivado do tupi, cujo significado remete a barro esbranquiçado. Terra originariamente habitada por índios, mística, repleta de mistérios, onde se guardam histórias, memórias e destinos. Entre tantas narrativas, uma se destaca.

Edi, nativa do local, mulher de fibra e de fé inabalável, morava com seu esposo, Murilo, em uma casa à beira-mar. À frente, uma discreta vegetação de mangue, talvez resquícios de um antigo rio de origem desconhecida, contracenando com o mar.

Para chegar até ali, atravessava-se uma larga faixa de areia, ladeada por coqueiros e grandes falésias, descortinando uma enseada de beleza arrebatadora. Naquelas águas mornas, Edi se banhava, muitas vezes acompanhada por golfinhos e tartarugas.

Por aquelas bandas, andava a madrinha de Edi, Dona Zefinha, mulher morena, sempre com lenço na cabeça e cachimbo aceso. Figura mística e pescadora nata, quando ia ao mar com os pescadores locais, a fartura era certa. Mesmo em maré ruim, com muito vento, quem se aventurasse a pescar, em sua companhia, retornava com muito peixe. Não tinha tempo ruim com ela. Lenda ou não, sua fama se espalhou.

Dona Zefinha, mulher de reza forte, guardava segredos, e apenas um deles revelou à afilhada.

De tempos em tempos, na sua casa, à beira-mar, Edi reunia amigos e preparava uma moqueca inesquecível. Quem provava, jamais esquecia. O segredo estava no tempero, herdado de Dona Zefinha: um verdadeiro tesouro, guardado em silêncio.

Mas, um dia, Edi decidiu se desfazer da casa. Vivia, porém, o dilema de entregá-la a alguém que não compreendesse seu valor fraternal, alguém que pudesse transformar aquele espaço repleto de memórias, em apenas mais um terreno sem alma.

Foi então que o destino fez sua parte.

Jóry Trigueiro, policial civil que serviu ao Rio Grande do Norte com coragem e determinação, decidiu se aposentar. Buscava um lugar tranquilo, onde pudesse despertar com o nascer do sol, contemplar o brilho do mar e reencontrar a paz que por tantos anos lhe faltara.

O lugar escolhido foi a Praia de Barra de Tabatinga.

Após várias visitas, seu caminho cruzou com o de Edi. Dessa aproximação nasceu a negociação da casa e, junto com ela, um laço afetivo. E, em 2005, Jóry finalmente comprou aquele espaço. Apaixonado pela culinária, passou a receber amigos nos fins de semana, enchendo novamente a casa de vida, alegria e encontros.

Certo dia, Edi lhe ensinou a famosa moqueca e, pela primeira vez, revelou o segredo do tempero de Zefinha. O prato tornou-se o favorito de Jóry. Amigos – alguns donos de restaurantes e outros de paladar refinado – ao provarem a iguaria, passaram a incentivá-lo a abrir seu próprio restaurante, para que mais pessoas pudessem desfrutar daquele sabor único.

Assim, em 2015, nesse cenário místico e envolto em histórias, nasceu o Tempero da Zefinha.

O restaurante preserva traços da antiga casa, com arquitetura rústica e cheia de identidade. Sua cobertura, feita com parte da madeira restaurada da antiga Igreja de Nossa Senhora do Ó — matriz da paróquia de Nísia Floresta, cuja construção teve início em 1703 e foi concluída em 1755 — carrega consigo séculos de fé e tradição.

O Tempero da Zefinha não é apenas um lugar onde se come bem. É um espaço onde se vive uma experiência. Um encontro entre sabor, história, espiritualidade e contemplação. Um lugar onde a alma, assim como o corpo, sai alimentada, e sempre transformada.

Jóry não apenas transformou seu dom de cozinhar em um negócio – hoje integrado ao turismo do Rio Grande do Norte, divulgando pelo Brasil afora a Praia de Barra de Tabatinga – como também eternizou uma pessoa simples, ao dar ao restaurante o nome que carrega história, afeto e gratidão.

A arte transforma, independentemente do caminho de cada um. Em Jóry Trigueiro, a culinária e a sua sensibilidade, aliada ao belo e à força da natureza, permitiu enxergar a verdadeira beleza da vida, oferecendo a todos momentos de paz, acolhimento e contemplação.

Ali, história e sonho se unem, fazendo nascer um espaço repleto de sentido, memória e emoção.

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